17 setembro 2006

Há mais de cem anos veio ao mundo, e para o mundo, o pintor mais brasileiro que já tivemos e o qual devemos reverenciar.
Nascido em 30 de dezembro de 1903, Candido Portinari apresentou ao mundo, o povo e a cultura brasileira através de suas obras.
Foi o segundo filho do casal de jovens imigrantes italianos, Giovan Baptista Portinari e Domenica Torquato, ambos vindos de uma província do norte da Itália, o Vêneto. Instalaram-se no interior paulista, em Brodoswki e lá tiveram seus treze filhos.
A cidade de Brodoswki, assim como boa parte do estado de São Paulo, tinha no início do século passado, o café como sua força econômica. Sendo assim, o lugar era rodeado por fazendas por onde passavam milhares de retirantes famintos e cansados vindos do Nordeste, caminhando há meses em busca de melhores condições de vida. E foi nesse ambiente de pobreza e injustiça social, que Portinari recebeu influência para as temáticas de suas futuras telas.
Foi na Igreja matriz que Candinho, como era conhecido na infância, mostrou pela primeira vez o talento que tinha para a arte. Aos 15 anos mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar e matriculou-se na ENBA – Escola Nacional de Belas Artes, onde recebeu uma sólida formação acadêmica.
Participou de sua primeira exposição, em 1921, no Salão Nacional de Belas Artes. Mas em 1923 Portinari participou do Salão com um retrato do escultor Paulo Mazzuchelli e recebeu sua primeira premiação. A partir daí Portinari conquistou definitivamente uma posição de destaque no Salão e muitos outros prêmios vieram. Em 1928, com o retrato de Olegário Mariano conquistou o prêmio de viagem à Europa. O período vivido na Europa, de 1929 a 1930 foi decisivo para o encaminhamento de sua carreira, pois foi um período de muito estudo, onde passava a maior parte de seu tempo em museus e ateliês, observando a arte européia. Foi assim que descobriu a sua vocação na pintura. Retratar o Brasil.
Além disso, em Paris, Portinari conheceu a jovem uruguaia Maria Victoria Martinelli, com quem casou e teve seu único filho, João Candido. Quando voltou ao Brasil passou a valorizar mais as cores e idéias, transformando a estética de sua obra realizada até aquele momento. Com a viagem ele pôde ver melhor a sua terra e sua gente, criando o desejo de pintá-las.
Candido Portinari foi o responsável pela afirmação do Modernismo em nosso País, e seu nome passou a ser símbolo de “arte moderna”. Com o quadro Café, em 1935, conquistou um importante prêmio internacional, que contribuiu de forma significativa para a sua visibilidade no cenário internacional e aumentou seu prestígio no Brasil.
As obras de Portinari são marcadas também pela tendência ao muralismo, pela brasilidade e pelo caráter social, pois, além de pintor, ele era um intelectual e um cidadão atento e envolvido com as preocupações sociais de seu País e do mundo. Sua contribuição contra as injustiças era sua arte, pois lutava por meio de sua pintura.
A sua obra valoriza o trabalhador, o trabalho, a dignidade, denuncia o sofrimento, a dor e a fome do povo sofrido e judiado pela seca do sertão. E, ao representar a dor de cada indivíduo, representou a dor da humanidade, a dor do mundo, acentuando o caráter universal de sua obra.
Portinari sempre foi preocupado com sua terra e sua gente, os trabalhadores, os oprimidos. Os miseráveis revelam na arte de Portinari a desigualdade e a injustiça social, contras as quais o pintor lutou e acreditou que podia contribuir com sua arte de protesto. Inclusive, o artista se filiou ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), a fim de realizar melhorias ao povo dolorido que ele tanto captou em suas telas. Portinari concorreu a deputado federal e anos mais tarde a senador, sem conseguir eleger-se em nenhum dos dois cargos. Apesar das derrotas, o partido cresceu e colocou outros nomes como Jorge Amado de deputado e Luiz Carlos Prestes de senador, transformando-se na “ameaça comunista” aos interesses das elites burguesas dominantes. O PCB foi colocado na clandestinidade e o cerco contra os comunistas apertou ainda mais, provocando o exílio voluntário do artista no Uruguai, onde realizaria uma exposição.
Ainda assim, mantendo o pensamento de expressar as dificuldades sofridas pelo povo, Portinari fez a série “Retirantes”, expondo os excluídos, restando-lhes apenas a morte como consolo. É o que mostra a obra “Criança Morta”, de forte repercussão na época.
Em 1952 o governo brasileiro ofereceu dois painéis a serem instalados na organização das Nações Unidas (ONU), nos EUA. Portinari também foi convidado para executar estas obras e concebeu os painéis “Guerra” e “Paz”. Esses dois temas ganharam em Portinari um tratamento especial. O elemento central de sua pintura era o Homem, suas alegrias, seus dramas e sua liberdade, A preocupação do pintor era a dignidade do Homem, os seus direitos. Foi contemporâneo da primeira e da Segunda Guerra, que afetaram e mudaram os rumos da humanidade. Os painés levaram quatro anos para serem terminados, pois, durante a realização, o pintor sofreu uma hemorragia e adoeceu gravemente. A causa diagnosticada foi aterradora: envenenamento pelo chumbo contido nas tintas.
Mesmo com esta triste notícia, Portinari encerrou as obras. No entanto, surgiu outro problema, a burocracia. Levou um ano até que as discussões entre diplomatas norte-americanos (que não queriam a obra de um comunista) e diplomatas brasileiros terminasse na liberação do material a ser exposto na ONU. Mas sua obra foi, por inteiro, uma grande mensagem de paz.
Impedido de pintar por causa da doença, Portinari dedicou seu tempo a ilustrações e o faz para diversas obras, como A Selva, de Ferreira de Castro. Acompanhou também várias exposições de seus trabalhos pelo mundo, e dedicou-se também à poesia.
Em 1962, em um último esforço para preparar uma grande exposição a convite da prefeitura da cidade italiana de Milão, descuidou-se em relação a saúde e faleceu no dia 6 de fevereiro, na Casa de Saúde São José, no Rio de Janeiro, vítima de intoxicação pelas tintas.
Mas, devemos ao ver Portinari, ver o Brasil. Do Brasil, ele fez, com sua arte, um registro completo, profundo e apaixonado. Pintou nossa flora, nossa fauna, nossa história, nosso folclore e nossa cultura. O povo brasileiro, com suas alegrias e tristezas, glórias e desilusões, povoou sua telas.

1 Comments:

Blogger [fabrizio augusto poltronieri] said...

este texto é muito interessante e pode oferecer alguns caminhos para o desenvolvimento do resto do trabalho. foi você que escreveu??

12:57 PM  

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